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ARTIGO · INFRAESTRUTURA

Servidor para rodar IA na empresa — como dimensionar

Rodar um modelo de linguagem dentro da empresa é um problema de memória de vídeo, não de processador. Este texto mostra a conta que decide o dimensionamento, o que ela não cobre, e por que a resposta muda conforme quantas pessoas vão usar ao mesmo tempo.

Por Carlos Eduardo de Souza Soares · CTO da Avia Hub

Publicado em . Revisamos este texto quando a fonte citada muda.

O gargalo é memória de vídeo, não processamento

A pergunta chega quase sempre na forma errada: “que servidor eu preciso comprar para rodar IA?”. A forma útil é outra: quantos gigabytes de memória de vídeo o modelo que eu quero rodar precisa ter disponíveis, ao mesmo tempo, para o número de pessoas que vão usar.

A diferença não é retórica. Um servidor com muitos núcleos e muita memória RAM, mas sem placa de vídeo com memória suficiente, não roda o modelo — ou roda a uma velocidade que ninguém aceita. Já um servidor modesto com a placa certa roda.

Esta é a parte de infraestrutura da decisão. A parte de perímetro — se o dado pode ou não sair da empresa — está em outro texto, e é ela que determina se este aqui é sequer necessário.

A conta dos pesos

Um modelo de linguagem é, do ponto de vista de memória, uma tabela de números. A quantidade desses números é o que o nome do modelo informa: um modelo “7B” tem sete bilhões de parâmetros.

Quanto cada parâmetro ocupa depende da precisão em que ele é carregado. A documentação técnica da NVIDIA dá o exemplo de referência: um modelo de sete bilhões de parâmetros carregado em 16 bits ocupa aproximadamente 14 GB de memória — ou seja, dois bytes por parâmetro em FP16 ou BF16.

A partir daí a escala é direta. A documentação da Hugging Face registra que um modelo em int8 é aproximadamente quatro vezes menor que o mesmo modelo em float32, e que int4 corta pela metade o tamanho do int8. Como float32 são quatro bytes por parâmetro, a tabela abaixo é uma derivação dessas proporções — anotamos que é derivação, e não citação literal, porque a documentação enuncia a razão e não o número de bytes.

PrecisãoBytes por parâmetroModelo de 8BModelo de 70B
FP324cerca de 32 GBcerca de 280 GB
FP16 / BF162cerca de 16 GBcerca de 140 GB
INT81cerca de 8 GBcerca de 70 GB
INT40,5cerca de 4 GBcerca de 35 GB

Duas leituras imediatas dessa tabela. A primeira: um modelo de 70B em precisão plena não cabe em uma única placa de nenhuma geração atual — exige várias placas ou quantização agressiva. A segunda: um modelo de 8B em INT4 cabe folgado em hardware que muita empresa já tem.

É a conta que separa “projeto de infraestrutura” de “roda no que existe”.

O que a conta dos pesos não cobre: o cache de contexto

Os pesos são o piso, não o total. Enquanto o modelo gera a resposta, ele mantém em memória um cache com o estado do que já foi lido e escrito — o KV cache. Essa memória é adicional aos pesos, e é ela que costuma explicar por que um servidor que rodava bem em teste passa a falhar em produção.

A NVIDIA publica a fórmula e um exemplo: para um modelo de sete bilhões de parâmetros em FP16, com uma requisição de quatro mil tokens de contexto, o cache fica em torno de 2 GB — e cresce linearmente com o tamanho do contexto e com o número de requisições simultâneas.

Traduzindo para decisão: dez pessoas usando ao mesmo tempo, com documentos longos, é um dimensionamento bem diferente de uma pessoa testando com perguntas curtas. O teste com uma pessoa não prevê o comportamento com dez.

A documentação do vLLM, um dos servidores de inferência mais usados, expõe exatamente esses dois controles: o comprimento máximo de contexto e o número máximo de sequências simultâneas são os parâmetros que se ajustam para caber na memória disponível. São eles que, na prática, decidem quantas pessoas o servidor atende.

Memória por placa, pela especificação do fabricante

PlacaMemóriaPotência declarada
NVIDIA L424 GBaté 72 W
NVIDIA L40S48 GBaté 350 W
NVIDIA A10040 GB ou 80 GB250 a 400 W conforme a versão
NVIDIA H10080 GB (SXM) · 94 GB (NVL)até 700 W (SXM)
NVIDIA H200141 GBaté 700 W (SXM)
GeForce RTX 509032 GB575 W

Duas observações sobre essa tabela, ambas de ordem prática.

A primeira é a diferença de potência. A L4, com 24 GB, declara até 72 W — cabe em servidor comum, sem alteração de energia nem de refrigeração. A H100 declara até 700 W por placa. Não são o mesmo projeto de sala.

A segunda: placa de vídeo de consumo aparece na tabela porque funciona tecnicamente e é usada em laboratório. Antes de usá-la em produção, vale ler a licença de uso do fabricante e confirmar o que ela permite em ambiente de datacenter — é uma restrição contratual, não técnica, e passa despercebida com frequência.

Quantização: o que se ganha e o que se perde

Quantizar é reduzir a precisão dos números do modelo para que ele ocupe menos memória. É a alavanca mais eficaz do dimensionamento — e é uma troca, não um almoço grátis.

A documentação da Hugging Face enquadra a troca como “eficiência contra acurácia” e registra o essencial: a quantização para int4 normalmente causa queda de acurácia maior que a int8. Não diz quanto, porque depende do modelo e da tarefa — e é por isso que a etapa de avaliação não pode ser pulada.

Os métodos diferem no que protegem. O GPTQ ajusta cada linha da matriz de pesos para minimizar o erro da conversão, restaurando para 16 bits durante a inferência. O AWQ preserva seletivamente a fração de pesos mais importante para o desempenho do modelo, em vez de tratar todos igualmente. O formato GGUF, usado por llama.cpp e Ollama, oferece uma escala contínua de níveis — de precisão plena até 1,75 bit por peso — em que cada nível é um ponto diferente na mesma troca.

A regra operacional que usamos: quantização é decisão que se valida com a tarefa real da empresa, não com teste genérico. Um modelo quantizado que responde bem sobre conhecimento geral pode degradar exatamente na extração estruturada que o processo depende.

Que modelos existem, e em que tamanhos

FamíliaTamanhos publicados no card oficial
Llama (Meta)3.1 em 8B, 70B e 405B; 3.3 em 70B; Llama 4 Scout com 109B totais e 17B ativados, Maverick com cerca de 400B totais e 17B ativados
Qwen (Alibaba)2.5 de 0,5B a 72B; Qwen3 denso de 0,6B a 32B, mais 30B-A3B e 235B-A22B em mistura de especialistas
Gemma (Google)2 em 2B, 9B e 27B; 3 em 270M, 1B, 4B, 12B e 27B; 4 com variantes de borda, um MoE de 26B totais e um denso de 31B
MistralMistral 7B; Mixtral 8x7B com 47B totais; Mixtral 8x22B com 141B totais
DeepSeekV3 e R1 com 671B totais e 37B ativados; destilados de 1,5B a 70B sobre bases Qwen e Llama

Repare no padrão de mistura de especialistas, presente em Llama 4, Qwen3, Gemma 4 e DeepSeek: o modelo tem muitos parâmetros no total, mas ativa só uma fração por token. Isso melhora a velocidade — e não reduz a memória necessária, porque os pesos precisam estar carregados para que o roteamento possa escolher entre eles. É a confusão mais comum no dimensionamento de modelo MoE.

Rodar sem placa de vídeo

É possível, está documentado, e tem limite claro.

O llama.cpp foi construído exatamente para isso: implementação em C e C++ sem dependências, com suporte a instruções vetoriais de x86 e ARM, e com inferência híbrida entre CPU e GPU para acelerar parcialmente modelos maiores que a memória de vídeo disponível. O vLLM também mantém backend de CPU suportado em x86, ARM, Apple Silicon e IBM Z, com ressalvas registradas na própria documentação — em processadores AMD Zen, por exemplo, float16 não é suportado.

O Ollama publica orientação de memória por tamanho de modelo: 8 GB de RAM para modelos de 7B, 16 GB para 13B e 64 GB para 70B. E permite forçar execução somente em CPU.

O que a documentação não promete é velocidade. Em CPU, a geração é mais lenta por um fator que depende do modelo e do hardware. Para uso interativo — alguém esperando a resposta na tela — costuma ser insuficiente. Para processamento em lote, à noite, sem ninguém esperando, costuma bastar. É uma decisão de tipo de uso, não de orçamento.

Energia e refrigeração: o item que some do projeto

É a parte que não aparece na conversa técnica e aparece na obra.

O guia oficial da NVIDIA para instalação do DGX H100 especifica até 10,2 kW por sistema, com faixa de temperatura recomendada de 18 a 27 °C segundo a classificação ASHRAE. O guia do DGX B200 especifica seis fontes de 3,3 kW, dissipação de 48.794 BTU por hora e resfriamento a ar com vazão de 1.550 CFM.

Esses números são de appliance de fabricante, não de servidor genérico — mas dão a ordem de grandeza do que uma máquina com várias placas de alto desempenho exige da sala. Sala de servidor de empresa média foi dimensionada para equipamento de rede e armazenamento, não para isso.

Por isso, no diagnóstico, tratamos energia, refrigeração e espaço em rack como parte do escopo de infraestrutura, não como detalhe de instalação. Descobrir na entrega que a sala não comporta o equipamento é uma das formas mais caras de errar o projeto.

A alternativa que não é comprar servidor

Entre “usar API pública” e “comprar servidor” existe um terceiro arranjo: instância com placa de vídeo em nuvem, dedicada à empresa. Os três grandes provedores documentam famílias de máquina com GPU para inferência — a AWS nas famílias G e P, a Azure na série NC, o Google Cloud nas famílias A e G.

Esse arranjo mantém o controle sobre qual modelo roda e qual versão, sem exigir sala, energia nem compra de equipamento. Em compensação, o dado passa a residir na infraestrutura do provedor de nuvem — o que reabre a questão de perímetro e de região que motivou a discussão em primeiro lugar.

Não existe arranjo que resolva os três eixos ao mesmo tempo: controle total, esforço mínimo de operação e perímetro fechado. O diagnóstico serve para descobrir qual dos três a empresa realmente precisa priorizar.

Perguntas frequentes

Qual é o menor servidor que roda uma IA útil na empresa?

Depende do modelo e do número de usuários simultâneos, mas a conta é direta: um modelo de 8B quantizado em INT4 ocupa cerca de 4 GB só de pesos, o que cabe em placa de 24 GB com folga para o cache de contexto de vários usuários. Modelos dessa faixa atendem bem tarefas de extração, classificação e resposta sobre base própria.

Preciso de placa de vídeo profissional ou posso usar uma de consumo?

Tecnicamente as duas funcionam. A diferença está em memória por placa, em suporte a operação contínua e — o ponto mais esquecido — na licença de uso do fabricante para ambiente de datacenter. Vale ler a licença antes de decidir, porque a restrição é contratual e não aparece em teste.

Modelo com mais parâmetros é sempre melhor?

Não para toda tarefa. Modelo maior é mais capaz em raciocínio aberto e conhecimento amplo. Para extrair campo de documento, classificar chamado ou responder sobre uma base interna bem indexada, um modelo menor costuma resolver com latência menor e memória menor. A escolha se valida com a tarefa real, não com ranking geral.

O que muda se eu quiser que dez pessoas usem ao mesmo tempo?

Muda o cache de contexto, que cresce linearmente com o número de requisições simultâneas e com o tamanho do contexto de cada uma. Os pesos continuam ocupando o mesmo espaço; o que aumenta é a memória por cima deles. É o motivo mais comum de um piloto bem-sucedido falhar ao ser aberto para a equipe.

Modelo de mistura de especialistas precisa de menos memória?

Não. Ele ativa menos parâmetros por token, o que melhora a velocidade, mas todos os pesos precisam estar carregados para que o roteamento possa escolher. A memória necessária corresponde ao total de parâmetros, não à fração ativada.

Fontes

  1. NVIDIA Technical Blog, “Mastering LLM Techniques: Inference Optimization”
  2. NVIDIA Technical Blog, “Mastering LLM Techniques: Inference Optimization” (seção de KV cache)
  3. Hugging Face Transformers, “Quantization concepts”
  4. Hugging Face Transformers, “GPTQ”
  5. Hugging Face Transformers, “AWQ”
  6. Hugging Face Hub, “GGUF”
  7. vLLM, “Conserving Memory”
  8. vLLM, “Installation — GPU”
  9. vLLM, “Installation — CPU”
  10. Ollama, “Hardware support”
  11. Ollama, biblioteca de modelos — página do Llama 2
  12. llama.cpp — repositório oficial (ggml-org)
  13. NVIDIA, “L4”
  14. NVIDIA, “L40S”
  15. NVIDIA, “A100 Tensor Core GPU — Data Sheet”
  16. NVIDIA, “H100 Tensor Core GPU”
  17. NVIDIA, “H200 Tensor Core GPU”
  18. NVIDIA, “GeForce RTX 5090”
  19. NVIDIA DGX SuperPOD Data Center Design (DGX H100), “Planning a Data Center Deployment”
  20. NVIDIA, “DGX B200 User Guide”
  21. Meta AI, “Introducing Llama 3.1: Our most capable models to date”, 23 de julho de 2024
  22. Meta, model card “Llama-3.3-70B-Instruct”
  23. Hugging Face, “Welcome Llama 4 Maverick & Scout on Hugging Face”
  24. Alibaba, model card “Qwen2.5-72B-Instruct”
  25. Alibaba — anúncio oficial do Qwen3, 29 de abril de 2025
  26. Google AI for Developers, “Gemma releases”
  27. Google, “Gemma 4: Byte for byte, the most capable open models”, 2 de abril de 2026
  28. Mistral AI, model card “Mistral-7B-v0.3”
  29. Mistral AI, model card “Mixtral-8x7B-v0.1”
  30. DeepSeek, model card “DeepSeek-V3”
  31. DeepSeek, repositório oficial “DeepSeek-R1”
  32. AWS, “Amazon EC2 Instance Types — Accelerated computing”
  33. Microsoft Learn, “NC family VM size series”
  34. Google Cloud, “GPU machine types” (Compute Engine)

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