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ARTIGO · CUSTO DE IA

Preço por token: como a conta de IA por API cresce com o uso

A cobrança por token tem uma propriedade que só aparece depois: ela sobe justamente quando a ferramenta começa a funcionar. Este texto explica a estrutura do preço, os itens que crescem sem aparecer na linha principal da fatura e como fazer a conta de 24 e 36 meses antes de decidir.

Por Carlos Eduardo de Souza Soares · CTO da Avia Hub

Publicado em . Revisamos este texto quando a fonte citada muda.

O que é um token e como a cobrança funciona

Token é a unidade em que o modelo lê e escreve texto, e é a unidade em que o fornecedor cobra. Não é uma palavra nem um caractere: é um pedaço de texto que o tokenizador do modelo trata como uma peça.

A própria documentação da OpenAI dá as razões aproximadas: um token equivale a cerca de 4 caracteres, ou a três quartos de uma palavra em inglês — 100 tokens são mais ou menos 75 palavras. A cobrança é dupla: paga-se pelo que entra (o texto enviado) e pelo que sai (o texto gerado), com preços diferentes. Saída costuma custar várias vezes mais que entrada.

Há um detalhe que interessa a quem escreve em português. As razões acima são medidas em inglês. A documentação da OpenAI reconhece que “outras línguas podem ter relação diferente entre caracteres, palavras e tokens”, mas não quantifica. A única quantificação oficial que encontramos vem da DeepSeek, e é sobre chinês: um caractere inglês equivale a cerca de 0,3 token e um caractere chinês a cerca de 0,6 — o dobro.

Procuramos e não encontramos nenhuma página oficial de OpenAI, Anthropic, Google ou DeepSeek que diga quantos tokens a mais o português consome por palavra. O silêncio é o dado: quem opera em português paga um prêmio que nenhum fornecedor publica. A única forma de saber o seu número é medir o seu próprio texto no tokenizador do modelo que você usa, e conferir o campo de uso que a resposta devolve.

Por que não publicamos tabela de preço aqui

Seria fácil colar uma tabela com preço por milhão de tokens. Não fazemos isso, por um motivo prático: essa tabela envelhece em semanas. Modelo novo entra, preço promocional expira, fornecedor muda a política. Uma tabela desatualizada num site é pior do que tabela nenhuma, porque quem lê acredita nela.

O que não muda é a estrutura da cobrança. Ela é a mesma há anos e é ela que determina a sua conta. As páginas oficiais, com o número de hoje, estão listadas no fim deste texto.

A estrutura do preço: seis multiplicadores

Conferimos as tabelas oficiais dos quatro principais fornecedores em 5 de setembro de 2026. Os multiplicadores abaixo estão publicados na documentação deles, e são o que faz a conta variar sem que o modelo mude.

MultiplicadorO que ele faz na conta
Entrada × saídaSão preços diferentes. A saída custa várias vezes a entrada. Uma tarefa que gera texto longo custa muito mais que uma que só classifica.
Modo de processamentoNa OpenAI, o mesmo modelo tem preço padrão, modo rápido (o dobro) e modos em lote (metade). Entre o mais caro e o mais barato do mesmo modelo há um fator de quatro.
Cache de promptLer do cache custa cerca de 10% da entrada normal. Mas escrever no cache custa mais que a entrada normal — 1,25x para cinco minutos e 2x para uma hora, na tabela da Anthropic. Cache mal desenhado aumenta a conta.
Janela de contexto longaNo Gemini, acima de 200 mil tokens de prompt a entrada dobra de preço e a saída sobe 50% — no mesmo modelo. Mandar o documento inteiro “por garantia” tem preço.
Tokens de raciocínioA OpenAI documenta que os tokens de raciocínio não são visíveis pela API, mas ocupam a janela de contexto e são cobrados como saída. Você paga por texto que nunca vê.
HorárioA DeepSeek cobra tarifa de pico e fora de pico, com 50% de diferença, definidas em fuso de Pequim. O mesmo trabalho custa metade se rodar na hora certa.

Some a isso as tabelas separadas: imagem, áudio e busca ancorada têm preço próprio, muito acima do texto. No Gemini, a saída de imagem chega a custar vinte vezes a saída de texto no mesmo modelo.

Nenhum desses itens é abusivo — todos estão publicados. O ponto é outro: a conta não é o preço do modelo, é o preço do modelo multiplicado por seis fatores que dependem de como você o usa. Quem orça um projeto de IA olhando só o preço por milhão de tokens erra por múltiplos, não por percentual.

Por que a conta sobe quando a ferramenta dá resultado

Esta é a propriedade que muda a decisão, e ela é estrutural, não conjuntural.

Uma ferramenta que ninguém usa é barata. Quando ela passa a resolver, três coisas acontecem ao mesmo tempo: mais gente usa, cada pessoa usa mais vezes, e os casos ficam mais complexos — mais contexto enviado, respostas mais longas, mais passos de raciocínio. Os três empurram a conta na mesma direção.

O efeito aparece no volume agregado do mercado. A Alphabet informou, no resultado do segundo trimestre de 2026, que suas APIs de modelo processavam cerca de 22 bilhões de tokens por minuto, contra 16 bilhões um trimestre antes — 37% de crescimento em três meses. E que quase 500 clientes de nuvem processaram, cada um, mais de 1 trilhão de tokens em doze meses.

Do lado de quem paga, isso significa que o sucesso do projeto é o gatilho do aumento de custo. É uma inversão desconfortável: o indicador de que a IA está funcionando e o indicador de que a fatura vai subir são o mesmo indicador.

Como fazer a conta de 24 e 36 meses

Não damos aqui o número da sua empresa, porque ele depende do seu volume. Damos o método, que é o que costuma faltar.

  1. Meça um caso real, em português. Pegue dez interações verdadeiras do processo que você quer automatizar. Some tokens de entrada e de saída de cada uma, pelo campo de uso que a própria API devolve. Não estime pela regra dos 4 caracteres: ela é medida em inglês.
  2. Multiplique pelo volume mensal atual. Quantas dessas interações acontecem hoje, por mês.
  3. Aplique os multiplicadores que valem para o seu desenho. Contexto acima do limite, raciocínio estendido, cache, modo rápido. Cada um deles tem taxa publicada.
  4. Projete a adoção, não a manutenção. Se o projeto der certo, o volume não fica igual. Projete pelo menos dois cenários: adoção conservadora e adoção plena.
  5. Compare com o custo de construir e operar internamente — projeto, infraestrutura e manutenção — somando os mesmos 24 e 36 meses.

O resultado dessa conta varia muito entre empresas, e é por isso que não existe resposta genérica. O que se pode dizer com segurança é qual é a forma de cada curva: o custo por API é uma função crescente do uso; o custo de construir é um investimento definido no projeto mais operação. Onde as duas curvas se cruzam é uma pergunta de aritmética, e a aritmética depende do seu volume.

O que não aparece na fatura: dado e propriedade

Duas coisas ficam fora da conta em reais e costumam pesar mais que ela.

Onde o dado fica. As políticas publicadas variam, e vale ler cada uma. A OpenAI declara que, por padrão, dados da plataforma de API depois de março de 2023 não são usados para treinar os modelos, e que entradas e saídas podem ser retidas por até 30 dias para prestação do serviço e detecção de abuso, com opção de retenção zero para casos elegíveis. Os termos comerciais da Anthropic dizem que a empresa não pode treinar modelos com o conteúdo do cliente. O Google separa: nos serviços não pagos da Gemini API, o conteúdo enviado e as respostas são usados para desenvolver produtos e tecnologias de aprendizado de máquina; nos serviços pagos, não.

Repare na assimetria: a mesma API, no mesmo fornecedor, tem regra diferente conforme você esteja no plano gratuito ou pago. Vale conferir em qual dos dois a sua equipe está de fato.

O que sobra no fim do contrato. Encerrado o contrato de API, não fica modelo, não fica base treinada e não fica independência técnica. O que a operação aprendeu ao longo de dois anos de uso não volta como capacidade da empresa. Essa é a diferença entre alugar uma capacidade e construir um ativo — e ela não aparece em nenhuma linha da fatura.

Quando o modelo por API continua fazendo sentido

Continua, e em mais casos do que a nossa posição comercial sugeriria. Vale a API quando o volume é baixo e previsível; quando o uso é experimental e você ainda está descobrindo se o caso existe; quando o dado tratado é público ou pouco sensível; e quando não há dentro de casa quem opere infraestrutura.

A decisão muda quando três condições aparecem juntas: volume crescente, dado sensível e uso que virou parte do processo — não mais experimento. Aí a pergunta deixa de ser qual fornecedor é mais barato por token e passa a ser se a capacidade deve ser alugada ou construída.

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