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ARTIGO · RISCO TÉCNICO

Obsolescência tecnológica: o risco que não aparece no orçamento

O sistema funciona, ninguém reclama e o custo de manutenção parece estável. É exatamente esse conjunto que esconde o problema: obsolescência não se manifesta como falha, e sim como a impossibilidade de corrigir a falha quando ela vier.

Por Carlos Eduardo de Souza Soares · CTO da Avia Hub

Publicado em . Revisamos este texto quando a fonte citada muda.

Definição em uma frase

Obsolescência tecnológica é a condição em que um componente do sistema deixa de receber correção do fabricante — e, a partir daí, toda falha nova descoberta nele é permanente até que o componente seja substituído.

Repare no que a definição não diz. Não diz que o sistema parou de funcionar, nem que ficou lento, nem que é feio. Um sistema obsoleto costuma funcionar bem. O que mudou não é o comportamento dele: é o que acontece quando algo dá errado.

Por que não aparece no orçamento

Orçamento registra despesa. Obsolescência não gera despesa até o dia em que gera toda de uma vez.

Enquanto o componente está em suporte, o custo é o contrato de manutenção. Quando o suporte acaba, esse custo não sobe — ele some, porque não há mais o que contratar. A linha do orçamento fica menor. Do ponto de vista contábil, o sistema obsoleto parece o mais econômico do parque.

O que mudou está fora do orçamento: passou a existir uma classe de problema para a qual não há solução comprada. É risco, não despesa. E risco só entra em orçamento quando alguém decide colocá-lo lá.

O que a auditoria mediu

O relatório do órgão de auditoria do governo norte-americano sobre os onze sistemas federais mais críticos dá números para o que costuma ficar no plano da intuição. Esses sistemas tinham entre 23 e 60 anos e custavam, juntos, cerca de US$ 754 milhões por ano só para operar e manter.

Três medições importam mais que a idade:

  • Quatro dos onze operavam com hardware, software ou sistema operacional sem suporte do fabricante.
  • Sete dos onze rodavam com vulnerabilidades de segurança conhecidas que não podem ser corrigidas sem modernização.
  • Oito dos onze usavam linguagens legadas, como COBOL e assembly.

A segunda linha é a definição de obsolescência em estado puro: a falha é conhecida, está publicada, e a correção não existe enquanto o sistema permanecer como está.

Há também o dado sobre o efeito acumulado: cerca de US$ 83 bilhões — 79% do gasto federal de TI planejado para 2025 — destinavam-se a operar e manter o que já existe, proporção que o próprio órgão registra como recorrente, ano após ano.

Vale a ressalva: são dados do governo federal dos Estados Unidos e não descrevem o parque brasileiro. Não encontramos estatística oficial brasileira equivalente.

Como saber se o seu parque tem esse risco

Não é preciso auditoria para começar. Fim de suporte é informação pública, publicada pelo próprio fabricante, e a maior parte das empresas nunca cruzou essa lista com o próprio inventário.

Alguns marcos verificáveis, para dar concretude:

ComponenteSituação declarada pelo fabricante
Visual Basic 6Fora de suporte pela Microsoft; os namespaces de compatibilidade no .NET constam como obsoletos
Visual FoxPro 9.0Ciclo de vida encerrado pela Microsoft
Windows 10Suporte encerrado em 14 de outubro de 2025
Windows Server 2012 e 2012 R2Suporte estendido encerrado em 10 de outubro de 2023; atualizações de segurança pagas até 13 de outubro de 2026
Python 2Sem correção, mudança ou relato de defeito desde 1º de janeiro de 2020
PHP em versões antigasLista oficial de versões sem suporte publicada pelo projeto
Struts 1Fim de vida anunciado pela Apache Software Foundation
Delphi em versões anterioresTabela oficial de versões suportadas da Embarcadero, com as anteriores já fora de suporte
Oracle Fusion MiddlewareDatas oficiais de fim de suporte premier e estendido publicadas pela Oracle

O exercício é mecânico e cabe em uma tarde: listar o que roda em produção, procurar a página oficial de ciclo de vida de cada item, e marcar as datas. O resultado dessa lista costuma ser mais persuasivo em uma reunião de diretoria do que qualquer argumento técnico, porque não é opinião de fornecedor — é a declaração do fabricante.

As quatro formas do risco

Obsolescência não produz um problema, produz quatro — e eles chegam em ordem diferente em cada empresa.

Segurança. Falha conhecida sem correção disponível. É o risco mais direto e o único que costuma ter consequência regulatória e contratual.

Conformidade. Contrato com cliente grande, exigência de licitação e requisito de auditoria frequentemente pedem componentes em suporte. O sistema obsoleto pode impedir a venda, não só a operação.

Pessoas. Quem sabe manter aquela base envelhece com ela. Não é só escassez de mão de obra no mercado: é concentração de conhecimento em uma ou duas pessoas dentro da empresa.

Movimento. A obsolescência bloqueia o que o negócio decidiu fazer. Integrar com um sistema novo, expor um serviço, usar o próprio dado para IA — tudo isso esbarra na base que não pode ser alterada com segurança.

Essa quarta forma é a que costuma mover a decisão, porque tem prazo comercial. As outras três são risco; essa é uma iniciativa parada.

O que fazer com o que está obsoleto

Nem tudo precisa ser substituído, e tratar tudo com a mesma urgência é o caminho mais rápido para não fazer nada. A triagem que usamos tem três perguntas:

  1. Está exposto? Componente sem suporte acessível pela internet é prioridade, sempre. Componente isolado em rede interna é outro patamar de risco.
  2. Muda? Sistema estável, que ninguém altera, pode ser mantido sob risco registrado e revisitado em prazo definido. Sistema alterado toda semana precisa de base técnica em suporte.
  3. Bloqueia alguma coisa? Se há iniciativa do negócio parada por causa dele, o custo da obsolescência já está sendo pago — só não está nessa linha do orçamento.

Para o que precisa ser substituído, o caminho que reduz risco é a substituição progressiva: um módulo por vez, com o novo e o legado processando a mesma requisição em paralelo para comparar respostas, e promoção gradual do tráfego com retorno imediato ao legado se algum indicador sair do padrão.

Um último dado, sobre o que mais falta: dos onze sistemas federais mais necessitados de modernização, apenas três tinham plano plenamente documentado, seis tinham plano parcial e dois não tinham plano nenhum. A ausência de plano é mais comum que a tecnologia antiga — e é a única das duas que pode ser resolvida nesta semana.

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