IA privada para empresas
Quando o dado não pode sair do perímetro e o que muda na arquitetura.
ARTIGO · FERRAMENTAS
A comparação útil não é de qualidade de resposta, que muda a cada versão. É do que cada contrato empresarial compromete por escrito: uso do dado para treino, retenção, região de processamento e controle do administrador. Este texto lê a documentação oficial dos quatro e mostra onde elas divergem.
Quem procura “qual IA é melhor para empresa” costuma encontrar comparações de resposta: qual escreve melhor, qual programa melhor, qual erra menos em determinado teste. Essas comparações têm validade curta. Cada fornecedor publica versão nova em intervalos de semanas, e a ordem se inverte.
O que tem validade longa é o contrato. O que a documentação oficial de cada um compromete sobre o dado da sua empresa não muda a cada versão de modelo — muda por decisão de política, com aviso, e fica escrito em página pública que dá para auditar.
Este texto compara essas quatro coisas, nas quatro ferramentas mais adotadas em ambiente corporativo: ChatGPT (OpenAI), Microsoft 365 Copilot, Claude (Anthropic) e Gemini (Google). Cada afirmação abaixo está na documentação oficial, com link ao fim.
Conferimos as páginas citadas em 5 de setembro de 2026. Políticas de fornecedor mudam; a data importa. Antes de decidir, abra os links e confirme na origem.
| Ferramenta | O que a documentação oficial diz |
|---|---|
| ChatGPT (planos de negócio e API) | Por padrão, dados de negócio não são usados para treinar os modelos; o uso só ocorre se o cliente optar explicitamente por compartilhar |
| Microsoft 365 Copilot | Prompts, respostas e dados acessados pelo Microsoft Graph não são usados para treinar os modelos de fundação |
| Claude (produtos comerciais) | Os termos comerciais dizem que a Anthropic não pode treinar modelos com conteúdo do cliente; por padrão, entradas e saídas dos produtos comerciais não vão para treino |
| Gemini for Workspace | O Google declara que não usa dados do Workspace do cliente para treinar ou melhorar os modelos generativos fora do Workspace sem permissão |
Nesse ponto os quatro convergem. É importante registrar a convergência, porque é o receio mais comum de quem está avaliando — e, nos planos empresariais, ele está endereçado por escrito nos quatro.
Duas ressalvas que valem para todos. A primeira: isso vale para o plano empresarial. O plano gratuito ou de consumo de cada um desses produtos tem política diferente, e é nele que a maior parte das equipes começa a usar por conta própria. A segunda: “não treinar” não é o mesmo que “não guardar”, que é o item seguinte.
Aqui a documentação começa a divergir, e a divergência é relevante para quem precisa responder a uma auditoria.
OpenAI. Nos planos empresariais, o administrador controla o período de retenção, e conversa apagada sai dos sistemas em até 30 dias. Na API, a retenção padrão é de até 30 dias, com possibilidade de retenção zero para clientes elegíveis e endpoints elegíveis.
Anthropic. A API comercial apaga automaticamente entradas e saídas no backend em até 30 dias. Retenção zero existe, mas é acordo comercial específico — não é o padrão, e não se aplica aos planos de consumo.
Microsoft 365 Copilot. Não há prazo fixo publicado pela Microsoft: o conteúdo é processado e armazenado alinhado aos compromissos contratuais já existentes com o Microsoft 365 do cliente, e a retenção segue as políticas que o próprio cliente configura no Purview. Já os registros de auditoria das interações são retidos por 180 dias por padrão, conforme a licença.
Google. Não localizamos página oficial atual com prazo de retenção declarado em número de dias para o Gemini for Workspace, equivalente aos 30 dias da OpenAI e da Anthropic. Registramos isso como lacuna de documentação, não como afirmação sobre a prática.
A leitura prática: onde há número, há o que auditar. Onde não há, a resposta ao auditor vira “segue a política do contrato”, e o contrato precisa então dizer alguma coisa.
Este é o ponto em que a comparação deixa de ser técnica e passa a ser jurídica.
| Ferramenta | Regiões documentadas |
|---|---|
| ChatGPT | Armazenamento em repouso: Austrália, Canadá, Europa (EEE e Suíça), Índia, Japão, Singapura, Coreia do Sul, Emirados Árabes Unidos, Reino Unido, Estados Unidos. Processamento (inferência): Europa, Estados Unidos, Emirados Árabes Unidos |
| API da OpenAI | Estados Unidos ou Europa, para clientes elegíveis |
| Microsoft 365 Copilot | Fronteira de dados da União Europeia para tráfego da UE; compromissos de residência via Advanced Data Residency e Multi-Geo |
| Claude | Endpoints regionais para Estados Unidos, Canadá, Europa e Ásia-Pacífico — oferecidos por meio de parceiros de nuvem, não pela infraestrutura própria |
| Gemini Enterprise | Multirregiões UE e EUA; regiões de país único: Canadá, Índia, Japão, Singapura e Reino Unido |
Nenhum dos quatro documenta residência de dados no Brasil. Conferimos as páginas oficiais de residência dos quatro fornecedores: o Brasil não aparece em nenhuma delas.
Isso não impede o uso. Significa que o uso dessas ferramentas com dado pessoal configura transferência internacional de dados, e transferência internacional tem regra própria na LGPD, regulamentada pela Resolução CD/ANPD nº 19, de 2024, que traz cláusulas contratuais-padrão a serem adotadas sem modificação.
Quem faz esse enquadramento não é a área de tecnologia sozinha. É uma decisão que precisa passar pelo jurídico e ficar registrada — porque, se um dia for questionada, o que vai valer é o registro, não a lembrança de quem escolheu.
| Controle | ChatGPT | Claude | Copilot / Gemini |
|---|---|---|---|
| SSO (SAML) | Business, Enterprise e Edu | Team, Enterprise e Console | Herdado do Entra ID / do Google Workspace |
| Provisionamento SCIM | Workspaces Enterprise e Edu elegíveis | Somente Enterprise e Console — não no plano Team | Herdado do provisionamento do tenant |
| Registro de auditoria | Plataforma de conformidade, eventos imutáveis por 30 dias | Somente Enterprise; exportação dos últimos 180 dias, sem título nem conteúdo das conversas | Purview (Copilot) e Vault (Gemini) |
| Exportação de dados | API de conformidade, integrável a eDiscovery, DLP e SIEM | Somente para o proprietário principal, nos planos Team e Enterprise | Content Search, Purview e APIs de exportação do Teams |
Duas assimetrias que mudam decisão de compra e que raramente aparecem em comparativo comercial.
A primeira: no Claude, SCIM e registro de auditoria não existem no plano Team — são exclusivos de Enterprise e Console. Uma equipe que adota o plano intermediário achando que terá auditoria vai descobrir o contrário depois.
A segunda: o registro de auditoria do Claude exporta identificadores, não o título nem o conteúdo das conversas. Para quem precisa de auditoria de conteúdo, isso não atende, e é melhor saber antes.
Os outros três são ferramentas que a empresa liga a dados que decide conectar. O Microsoft 365 Copilot não: ele já nasce dentro do perímetro de dados do tenant, com acesso ao que está no Microsoft Graph.
A documentação da Microsoft descreve o mecanismo com clareza: o Copilot só mostra dado organizacional ao qual o usuário individual já tem, no mínimo, permissão de leitura. O isolamento entre inquilinos é feito pela autorização do Microsoft Entra e por controle de acesso baseado em papel, e o índice semântico respeita a fronteira de acesso da identidade do usuário. Onde há rótulo de confidencialidade do Purview, o Copilot honra os direitos de uso concedidos.
Isso tem duas consequências opostas, e as duas são verdadeiras.
A favor: não há modelo de permissão novo para administrar. O que já estava configurado continua valendo.
Contra: o Copilot expõe, em linguagem natural, o que a permissão do tenant já permitia — inclusive o que estava tecnicamente acessível e ninguém tinha percebido. Pasta de RH aberta para “todos da empresa” por engano, herança de permissão em biblioteca antiga, planilha compartilhada com link amplo: nada disso é criado pelo Copilot, mas passa a ser encontrável por quem antes não sabia procurar.
Por isso a implantação de Copilot em empresa com histórico longo de SharePoint costuma exigir revisão de permissão antes da ativação. É trabalho de governança de dado, não de IA — e é o item mais subestimado nesse projeto.
O que cada fornecedor declara em página oficial de segurança ou conformidade.
OpenAI: SOC 2 Tipo 2; ISO/IEC 27001:2022 e 27701:2019; ISO/IEC 42001:2023, a norma de sistema de gestão de IA.
Anthropic: ISO 27001:2022; ISO/IEC 42001:2023; SOC 2 Tipo I e Tipo II.
Microsoft 365 Copilot: a página oficial de ISO 42001 lista o Microsoft 365 Copilot nominalmente entre os serviços de IA no escopo da certificação.
Gemini for Workspace: o Google anunciou conformidade SOC 1, SOC 2 e SOC 3 para o Gemini no painel lateral de Gmail, Drive, Docs, Sheets e Slides. Já a documentação do Gemini Enterprise usa formulação de ressalva — diz que as edições têm “muitas das seguintes certificações” e remete às páginas de conformidade do Google Cloud para confirmar item a item.
Essa diferença de redação é significativa para quem monta dossiê de conformidade. Uma lista fechada é citável; “muitas das seguintes” obriga a confirmar item a item antes de afirmar qualquer coisa a um auditor.
Três limites que valem igualmente para os quatro, e que costumam ser a razão pela qual uma empresa acaba precisando de arquitetura própria em vez de assinatura.
O dado sai da empresa. Em todos os quatro, o conteúdo é processado na infraestrutura do fornecedor, fora do Brasil. Compromisso contratual de não treinar e de apagar em 30 dias é uma coisa; o dado não sair do perímetro é outra. Onde a exigência é a segunda — segredo industrial, dado sensível de saúde, informação sob sigilo legal — nenhuma assinatura resolve.
Você não escolhe o modelo nem a versão. O fornecedor atualiza, deprecia e substitui. Um fluxo interno calibrado sobre o comportamento de uma versão pode se comportar diferente depois de uma atualização que você não pediu e não pode adiar.
Nenhum deles conhece o seu processo. Todos respondem bem sobre o mundo. Nenhum sabe a regra de exceção que a sua empresa aplica no fechamento do mês, porque isso não está em lugar nenhum que eles tenham lido. Fazer a ferramenta usar o conhecimento da empresa é um projeto à parte — de recuperação de informação, permissão e avaliação — e é onde está a maior parte do trabalho real.
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